Orlando da Costa (1929-2006)                                (Extraído do Super Goa)

No dia 27 de Janeiro, por um acaso, estando a ver o noticiário da RTPi, nessas notícias que correm na base do écran, sucedeu notar:
“Faleceu hoje o escritor Orlando Costa. O funeral se realiza amanhã”.
Seria o meu amigo dos tempos do Liceu Nacional Afonso de Albuquerque?!

Encontros passados

E era mesmo, como informações posteriores da sua família em Goa e e-mails de Portugal me confirmaram. Feito o Liceu, ele seguiu a Lisboa para estudos superiores e só nos encontraríamos em Lisboa, em 1960, aquando da minha estadia em Portugal.

A última vez que lhe falei foi numa sessão para o homenagear organizada pela Fundação Oriente-Goa, onde falaram, entre outros, o Pe. Martinho Noronha (hoje R.I.P) recordando a sua amizade com ele, e o poeta Manohar SarDesai numa apreciação de homem de letras, da obra literária do Orlando Costa. (Uma nota para os que não o conheçam: Manohar Sardesai, formado nas Universidades de Bombaim e depois da Sorbonne, é um dos mais distintos poetas de Goa na nossa língua maternal, o concani, e conhece muito bem a língua portuguesa).

Foto Fundação Oriente Goa

Elementos biográficos

Depois de seguir a Lisboa para os seus estudos universitários, Orlando Costa licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras. Na Casa dos Estudantes do Império, nos anos 50, conviveu de perto com alguns dos futuros dirigentes da FRELIMO, MPLA e PAIGC.

Estreou-se como poeta em 1951, com o livro «A Estrada e a Voz», mas é nos romances que tem as suas principais obras de destaque: «O Signo da Ira» (1961), «Podem Chamar-me Eurídice» (1964), «Os Filhos de Norton» (1994) ou «O Último Olhar de Manú Miranda» (2000). No teatro foi reeditada em 2003 a obra de 1971 «Sem Flores Nem Coroas», onde retoma o período colonial português em Goa. Em 2004, lançou «Vocações/Evocações», uma selecção de poemas para comemorar os 30 anos do 25 de Abril de 1974. Foi ainda vice-presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE), instituição que frequentava com muita regularidade. Foi ainda publicitário e dramaturgo. Orlando da Costa chegou também a integrar o Comité Central do PCP.

Mas nos obituários que li, nenhum fazia referência ao que seria a primeira produção literária em verso dele, publicada e premiada  em Goa quando teria uns 18 anos.

Recordando os tempos no Liceu

Em 1945…já lá vão 55 anos (e para mim esta Crónica está a ser um “recordar  é viver”), o Liceu tinha uma plêiade de professores, muito distintos: Grevi De Figueiredo (com o cacoete de mexer os ombros), António de Figueiredo (o inesquecível Maestro e Professor do Canto Coral), Carlos Viegas (com uma mania de bater com a vara nas cabeças dos alunos por qualquer disparate, ...e ainda tenho dores de cabeça de uma varada que levei), Filipe Pinto (ensinando-nos História de uma forma tão encantadora que parecia ter estado presente), Raul Fernandes (que nos ensinava Português e Francês pela gramática e que nos lia páginas da literatura portuguesa como “A última corrida de toiros em Salvaterra”, etc.), Garcia da Silva (um terror nas aulas de matemática), Lúcio Miranda (que conseguia ensinar o Desenho ainda a alunos como eu, que não podiam desenhar uma linha recta nem com o auxilio de uma régua, escritor e orador brilhante. Lembro-me da sua conferência no dia 7 de Agosto quando Rabidranath Tagore, o Nobelista indiano, falecera, e quase cantando passagens do seu celebrado GITANJALI) , Videira Pires (ensinando-nos Filosofia e que pronunciava o seu nome como Bideira Vires), Araújo Mascarenhas, ….e tantos outros!!

Uma verdadeira estrela de primeira grandeza foi FRANCISCO BRAS GOMES (FBG), “alto na sua estatura física, bem como alto na sua estrutura moral”, como eu escrevi num artigo da revista “ALA”, após o seu regresso a Lisboa. FBG marcou-nos pelas inúmeras actividades que iniciou e patrocinou, além das suas excelentes aulas de físico-química.

Foto Fundação Oriente Goa

Concurso literário

Uma dessas actividades foi o “CONCURSO LITERÁRIO” e Orlando Costa ganhou o primeiro Prémio para o seu poema: “O meu ideal”. Suponho que o mesmo nunca foi publicado em parte alguma e assim é desconhecido. Orlando teria composto mais versos e botado quadras humorísticas às moças dos seus tempos de estudante, mas este poema foi, sem dúvida, a primeiro da sua veia poética a ser premiado.

Lembrei-me que eu teria o nº da Revista “ALA” onde ele fora publicado. Procurei-o e fui encontrá-lo entre alguns livros e “cadernos diários” dos meus estudos no Liceu (1940-1947) que ainda preservo como uma “relíquia”!!

Não posso prestar nenhuma melhor homenagem à memória do ORLANDO COSTA, do que apresentar-vos o mesmo poema. Assim, cá vai ele, em exclusivo, para o deleite dos que visitam o “Supergoa.com”.

Tendo-se tornado um agnóstico, o “MEU IDEAL” do Orlando, não teria sido estar um dia no Paraíso Celestial. Parece-me ser lógico. Mas os seus ideais sociais e políticos, mesmo se algo esquerdistas, e o seu amor sempre dedicado à sua Goa e que manifesta nos seus livros, para lá o teriam conduzido.

REQUIEM ETERNAM DONA EI, DOMINE!

É a prece que este seu amigo faz

Fernando do Rego

 

 “O meu Ideal”

Música!
Música bela,
arte Sem igual
estarás tu, meu ideal,
ao meu alcance,
ao alcance…
dum ente mesquinho
como eu?

Tu, que és a esperança
do pobrezinho,
o bálsamo sagrado
dos que sofrem,
dos que a felicidade
desconhecem
o ungüento suave,
não me dirás
onde existes,
em que lume azulado
tu crepitas,
em que coração desventurado
tu palpitas?...

Onde te encontras?
É nas moitas tristes,
espalhadas pelos montes,
e banhadas pelas águas frias
das fontes,
que te achas?
ou, no botão de rosa
a desabrochar,
na dália formosa
a desfolhar?

Tu, que beijas a fronte
do pobre órfão,
que carícias não conhece,
que afogos desconhece,
como a esperança duma benção;
tu, arte incomparável,
que enxugas os olhos
à viúva triste,
que, inconsolável,
chora a morte do marido,
que já não existe...;
tu, dos desventurados
a esperança,
a aurora a raiar
aos olhos do náufrago desgraçado,
que, ao sopro do vento forte,
vagueia sem norte,
ao sabor das águas;
onde, onde existes?

Tu, que foste para mim,
para o meu coração,
de abròlhos plantado,
como o sol,
que em rúbido arrebol,
se ergue por detrás das serras,
a raiar
por sôbre as terras...,
ou como a lua num cemitério,
por entre os ciprestes, a espreitar,
e em plaguas enluaradas,
a beijar
as tumbas frias, abandonadas;
onde te encontras?

Não me dirás
a mim, que to recebi,
e no meu coração,
tão pequeno, tão desventurado,
te acolhi,
com aquela ternura
com que a mãi,
cheia de desventura,
beija o filho amado,
com aquela alegria,
com que o prêso inocente,
em fria masmorra atirado,
saúda
o primeiro raio de sol,
que, pela fresta esguia,
Ihe vem beijar...
os pés algemados!;
não me dirás
onde te encontras?

Em que botão a estiolar,
em que lírio a desabrochar
te acharei, bela arte
por mim almejada?
Que palácio encantado,
que paraíso d’ilusão
te serve de morada?

Eu, que me tenho arrastado
da mais alta serra
ao vale mais fundo,
por arrozais louros
e montes rochosos,
por palmares verdejantes
e areais calcinantes,
por prados em flôr,
por trilhos dolorosos...
com palácio algum encantado
topei...
No meu caminho pela  terra,
pelo imenso mundo,
cheio de perigo e mal,
à tua procura,
à procura do meu Ideal!

Onde existes?
No solitário eremitério,
nas moitas de urzes,
mesquinhas e tristes,
abandonada,
desprezada
na encosta do monte?
Estarás por ventura
atrás das rochas escondida,
despercebida
aos olhos daquele que te procura?
Ou disfarçada
em frescas boninas,
em margaridas finas
da encosta florida?
Onde te encontras bela arte?
Será na fria fonte,
Onde se banham joviais
Os belos pardais?

Será a tua morada
em algum triste cemitério
entre os goivos e as cruzes
dos frios covais?

Será, em várzeas imensas,
ao sôpro da brisa, murmurantes,
em arecais verdejantes
entre palmeiras densas,
ou, em belos jardins
entre os “zaiôs” em flor
e “mogarins”
de perfumes inebriantes,
entre belas rosas
e dálias formosas
a sorrirem d’amor,
onde correm,
sôbre leito d’areia fina
as águas rumorosas
da ribeira cristalina?

a que gruta d’ilusão,
a que caverna escura
te acolheste?
Que palácio encantado,
que palhota obscura
te acoita assim,
arte sublime,
que foges dos olhos de quem te procura?

Em que covil escuro,
to escondeste,
para assim
eu não te achar
e em parte alguma te  encontrar,
en que, incansável,
em vão te procuro?...

O sol punha-se
lançando
nas nuvens azuladas
largas pinceladas
de sangue,
esbanjando,
por tôda, a parte,
raios fulgurantes de luz,
e os alegres passarinhos
recolhiam-se aos seus ninhos,

 

Cansado
do longo caminhar,
mais cansado que um romeiro,
mais trópego que um velho peregrino,
à minha cabeça descansei
na fresca alfombra,
à sombra
dum esguio coqueiro
donde balouçava
um frágil ninho abandonado...
Era o silêncio soturno das frias tumbas,
o silêncio mudo das catacumbas,
que reinava naquele remanso ameno,
esquecido na solidão que seduz!
Embalado
pelo sôpro da brisa fresca,
dormi... e sonhei:
— Num lago calmo
de água cristalina,
vogava silencioso
um cisne formoso
de brancura peregrina.
Na sua superfície espelhenta,
lisa e nua,
reflectia
a face ebúrnea da lua,
num céu de nuvens lavado,
como uma moeda de marfim
em vasta peça de setim...,
a rolar, a deslisar,
como uma formosa
e multicôr mariposa,
num belo jardim
perfumado,
por cima das flôres
a esvoaçar,
a doidejar...
A servir de moldura
a isso tudo,
sorria viçosa a verdura
luxuriante
de “zaiôs” em flôr,
de belas rosas,
de “mogarins” de perfume inebriante,
de dálias formosas
a desabrocharem d’amor!

A brisa fresca,
que suave soprava,
trouxe-me  aos ouvidos extasiados,
os sons magoados
duma melopeia dolente,
duma melodia plangente,
triste, a transparecer
uma intensa paixão:
cheia de vida expressão:
era o cisne que cantava
as desventuras do seu viver!
Mãos mágicas dedilhavam,
harpas encantadas,
que soltavam sons dolentes,
acompanhando
um  violino mavioso,
a soltar sons vibrantes,
melodiosos, plangentes...
que se iam pêrder
nas profundezas da minha alma!
A natureza inteira escutava
e o meu coracão inteiro palpitava!

Uma voz suave e calma
me animava,
aos meus ouvidos segredava,
dizendo: “Levanta-te
e segue animoso!
Não vaciles
perante obstáculos
nem pares, antes
que me encontres,
que eu estou
ao alcance de todos!
Eu estou em tudo o que é belo,
embora singelo...,
em tudo o que arrebata alma»!

O sol sumia-se no oceano,
como, a luz da tocha,
sacudida por gigantesco sôpro,
E, pelo duro trilho,
entre a urze e a rocha,
subia,  devagar, risonho,
cheio de confiança
a transbordar de esperança
o caminheiro de sonho,
o paladino da arte,
que vai à busca da perfeição,
do seu elevado Ideal,
arcano da imortalidade,
que Meyerbeer sintetizou,
que Beethovem idealizou!


ORLANDO DA COSTA
Aluno do 6º ano do Instituto Abade Faria
1º Prémio do Concurso Literário, organizado
pela Associação Escolar do Liceu (1944)

Publicado na Revista “ALA” da Associação Escolar do Liceu Nacional de Afonso de Albuquerque – 1945, Pgs 62-64